NotíciasNotícias

Destruição e substituição de demandas são riscos que se constroem ao longo do tempo.

O alumínio reage ao risco energético, não apenas ao risco geopolítico.

Os riscos de fornecimento do Golfo, os custos mais altos de energia e os estoques decrescentes estão reformulando o piso de custos do mercado.

O rali intenso nas cotações do alumínio parece cada vez mais um sinal do mercado de energia em vez do mercado de metais, já que o preço acompanha o rali nos preços do petróleo bruto e do gás. O preço oficial à vista da LME chegou a US$3.600/Ton. A cotação segue uma forte escalada desde Março, à medida que as tensões geopolíticas no Golfo se intensificaram e continuam a abalar os mercados globais.

A resposta sugere que os “traders” não estão simplesmente precificando o risco de embarques de metal interrompidos. O alumínio é o mais intensivo em eletricidade dos metais básicos, e a força atual dos preços aponta para uma preocupação crescente com a interrupção do fornecimento e a inflação potencial dos custos de energia. Com esses efeitos, o mercado de alumínio parece estar atribuindo um prêmio de risco à possibilidade de que os preços mais altos da energia afetem o custo de fundição e e possam restringir a produção.

Na geopolítica, o que antes era descrito como a era da paz agora se parece cada vez mais com a era da ruptura. Os mercados de petróleo e gás reagiram rapidamente ao conflito no Oriente Médio, mas o mercado de alumínio pode ser o sinal mais revelador.

Os movimentos de preços permanecem abaixo do pico de US$4.000 (o maior já visto) em 2022, mas representam uma clara “reprecificação” do risco, à medida que os preços da energia aumentam e o complexo industrial de metais absorve o novo choque geopolítico.

À primeira vista, o rali nas cotações parece um prêmio pontual em meio à guerra. Na verdade é algo mais próximo de um prêmio de energia. O alumínio é um dos produtos industriais mais intensivos em eletricidade do mundo. A fundição converte a alumina em metal através da eletrólise, ou seja, os custos de energia normalmente respondem por cerca de 30 a 40% das despesas operacionais. Quando os sistemas de energia se tornam instáveis, a base de custos do alumínio se move imediatamente.

O conflito já começou a interferir diretamente tanto no fornecimento de energia quanto na produção de alumínio no Golfo.

A “Qatalum” (joint venture da Hydro) iniciou uma paralisação controlada depois que seu fornecedor de gás suspendeu as entregas, enquanto “Alba” (Bahrein) e “E.G.A.” (Emirados Árabes) declararam força maior nos embarques após os ataques sofridos em suas fábricas em meio à guerra. Reiniciar um “smelter” (usina de fundição) não é como reacender uma fogueira. Uma vez reduzida, a recuperação completa pode levar muitos meses.

O Oriente Médio produz cerca de 6,8 milhões de toneladas/ano de alumínio primário, sendo70% exportado através do Estreito de Ormuz. A partir de Março, três milhões de toneladas de capacidade de fundição do Oriente Médio estão off-line.

A preocupação imediata do mercado é a logística. O estreito nunca foi formalmente fechado à navegação comercial, apesar de décadas de tensão geopolítica. Tráfego reduzido de embarcações, prêmios de seguro mais altos e interrupções ocasionais são suficientes para comprometer o fornecimento.

A suspensão das negociações do segundo trimestre com compradores japoneses pela Rio Tinto oferece um sinal antecipado de que produtores e consumidores estão refazendo contas à medida que as tensões aumentavam. Essa não é uma tática de negociação; ela reflete uma cadeia de suprimentos cujos custos e rotas de entrega se tornaram imprevisíveis.

O episódio não se restringe às negociações bilaterais. Os estoques de armazéns da LME seguem com tendências mais baixas nos últimos anos. Quando os estoques são menores, as interrupções na produção ou no transporte se traduzem mais rapidamente na volatilidade dos preços.

Os estoques de alumínio LME caíram acentuadamente na última quinzena, com os mandados em vigor baixaram de 420 mil ton. em 27/02 para 274 mil ton. em 09/03‚ uma queda de aproximadamente 147 mil ton. em poucos dias.

O componente mais delicado está além da logística: a energia é cada vez mais a restrição vinculativa ao fornecimento de alumínio.

O gás barato e a eletricidade abundante ajudaram a transformar o Golfo em uma das principais regiões exportadoras de alumínio do mundo nas últimas duas décadas. As 6,8 Ton./ano do Oriente Médio são 20% da produção fora da China.

O impacto se estende bem além do próprio Golfo. Os preços da eletricidade em muitas regiões industriais continuam ligados direta ou indiretamente aos mercados de combustíveis fósseis. Os preços mais altos do gás elevam as tarifas de energia, os preços mais altos do petróleo elevam as taxas de frete para matérias primas e metais acabados, e os custos de seguro adicionam mais uma camada. Cada elemento eleva o custo de produção do alumínio.

Os preços europeus do gás e do GNL subiram no início de março, precificados pelo o risco de interrupção do fornecimento no Golfo. O Estreito de Ormuz é uma “artéria-chave” para o comércio global de GNL, até mesmo a possibilidade de interrupção foi suficiente para aumentar drasticamente os mercados de gás.

O teto da capacidade de produção de alumínio na China retira um “amortecedor” que foi tradicional do mercado.

O momento desse choque é estranho para o mercado de alumínio porque seu amortecedor tradicional enfraqueceu. Durante grande parte da década passada, o aumento dos preços poderia desencadear uma produção adicional da China, que expandiu constantemente a capacidade de fundição e absorveu grande parte da demanda mundial. Esse “mecanismo” mudou. A capacidade de produção do alumínio chinês é de 45 milhões de toneladas sob a nova política do governo, e as taxas de utilização já estão próximas desse teto.

O resultado é que a China não é mais o fornecedor flexível que já foi. As importações de alumínio primário aumentaram, enquanto as exportações de produtos semimanufaturados desaceleraram. Com efeito, o maior produtor mundial está absorvendo mais metal internamente em vez de exportar para os mercados globais.

Estoques decrescentes e fundições ociosas aumentam a volatilidade dos preços fora da China. Alguns “smelters” estão desativados há alguns anos. Reiniciar essas instalações requer contratos de eletricidade de longo prazo a taxas competitivas. Neste contexto energético atual, estes contratos são difíceis de negociar, sobretudo porque os grandes consumidores de eletricidade, como os data centers, competem pelo mesmo fornecimento.

É por mais esta razão que a volatilidade do alumínio tem aumentado nos últimos anos. O mercado está emergindo de um longo período de excedente para um em que a capacidade sobressalente é decrescente, os estoques são menores e a produção está fortemente ligada à disponibilidade de energia.

O conflito com o Irã simplesmente expôs essa estrutura. Mesmo que as rotas de navegação permaneçam abertas e os “smelters” reiniciem dentro de meses, a reformulação mais ampla pode ser durável. Os custos energéticos mais elevados aumentam globalmente o custo marginal da produção de alumínio. Nos mercados de commodities, o custo tende a agir como a gravidade. Os preços podem se mover acima ou abaixo dele temporariamente, mas raramente permanecem desconectados dele por muito tempo.

Há também uma dimensão financeira. Os ativos “sólidos” geralmente atraem atenção renovada dos investidores durante períodos de estresse geopolítico e seu risco.

Portanto o comportamento do mercado, ainda não precifica o colapso na oferta. Precifica o atrito: na energia, na logística e nos estoques.

Se o Estreito de Ormuz reabrir e os mercados de energia se estabilizarem, o prêmio embutido nas cotações do alumínio pode diminuir. Mas se os mercados de energia permanecerem voláteis e o risco de transporte persistir, o alumínio terá custos maiores. O que parece ser um efeito geopolítico momentâneo pode se tornar algo mais estrutural. O alumínio é e será sempre um metal intensivo em eletricidade. O momento atual está apenas readmitindo o quão intimamente os dois são conectados.

Fonte: L.M.E. Insight Team
Fotos: “Smelter” Emirates Global Aluminium (EGA), Porto de Vila do Conde (Alunorte/Albrás).